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Crescente Fértil: Uma Introdução

O Crescente Fértil foi uma região que incluía desde do Egito Antigo, o Levante (Canaã, Fenícia, Moabe e Amom) e toda a Mesopotâmia Antiga, que era um “vale fluvial do Eufrates e do Tigre” podendo ser dividida em duas partes, respectivamente a noroeste e a sudeste do ponto de aproximação entre os dois rios: “a Alta Mesopotâmia, mais montanhosa, e a Baixa Mesopotâmia, imediatamente ao norte do golfo Pérsico, região extremamente plana” (CARDOSO, 1986, p. 29).   Na parte sul mesopotâmica, nós tivemos, principalmente nos momentos iniciais, a presença dos  sumérios , que “se julgava terem migrado por mar para a região, mas arqueologicamente se vinculavam ao sudoeste do Irã (o Elam, ou Susiana), e falavam uma língua aglutinante” ( Ibid ., p. 30). Já na parte norte, os  acádios  se fizeram mais presentes, um grupo que provavelmente veio do oeste, devido a sua língua semítica. Os acádios, sob a liderança de Sargão, O Velho, invadiram a Suméria e construíram o primeiro im...

Os Povos do Mar e o Colapso da Idade do Bronze

Os Povos do mar é uma denominação recente aplicada por Emmanuel de Rougé1e por Gaston de Maspero2, sobre um grupo de povos diferentes que parecem ter efetuado um movimento migratório/invasor na direção oeste-leste na costa sul da Anatólia e, depois, infletido de norte para sul, chegando a atacar o Egito, mas sendo derrotados duas vezes, após sucessivas vitórias ao longo da costa cananeia. As fontes egípcias datadas do século XII e XIII a.C afirmam que esses povos eram provenientes das “ilhas que estão no meio do Grande Verde”.3 Esse “Grande Verde” é entendido comumente pelos hebreus e semitas como sendo o Mar Mediterrâneo, provavelmente se extendendo até o Mar Egeu. Porém, devido a pouca documentação e carência de informação, essa proposição tem sido refutada por Alessandra e por Claude Vandersleyen.4 Todavia, no extrato tirado da inscrição do 8° ano de Ramsés III, cerca de 1190 a.C, é citado alguns dos nomes que formavam essa “confederação”: Filisteus, Tjeker, Shekelesh, Denyen e Wesh...

O estudo da História e as memórias

O estudo da História é essencial para entendermos como chegamos até aqui, por que as coisas são o que são, compreender que muitos dos direitos que temos como naturais foram conquistados, forjados e formados pelos homens ao longo da história com muito suor, sangue e lágrimas. A memória, segundo Guarinello (2013: 08), é a grande “fundadora e legitimadora das identidades, porque é ela que define quais são as mais importantes, quais não são fluidas e passageiras e quais são aquelas que adquirimos de nascença, como herança de nossos ancestrais”. “Com efeito, o interesse do passado está em esclarecer o presente; o passado é atingido a partir do presente” (LE GOFF, 1990: 13-14).  Marc Bloch, antigo medievalista francês, afirma que se História não servisse para nenhuma função prática, ela ainda serviria para diversão, todavia, com falta de um sentido teleológico, faltaria algo a lhe legitimar. Não que ela precise de alguém ou de algo para legitimá-la, até mesmo porque sua funcionalidade es...

A Cúria Júlia como Lugar de Poder no Principado de Augusto

 A Cúria Júlia foi um edifício construído inicialmente por Júlio César para abrigar as assembleias do Senado. Após seu assassinato, foi terminada por Otávio Augusto em 29 a.C. Foi danificada e reconstruída diversas vezes até o fim do Império Romano. No início do Principado de Augusto, ela teve uma posição crucial e talvez “nova” para uma Roma até então republicana. É sobre a posição do Senado no início do império enquanto lugar de poder que iremos abordar a seguir.  Localizada em meio ao fórum romano, um lugar antropológico geométrico por excelência, a Cúria Júlia era um dos principais focos de poder no principado de Augusto. Denominada assim por causa da gens Júlia da qual Otávio fazia parte, o nome já deixava claro de quem emanava a maior parte do poder: do imperador. Embora seja errado pensar que o Senado neste tempo só detinha poderes figurativos, também não vemos nesse período uma diarquia . “Podemos concluir que, apesar de o Senado ter perdido sua hegemonia polític...

Um Resumo de Lévi-Strauss e Geertz

A Antropologia do século XX só pôde ter suas maiores “experiências etnográficas” francesas a partir da década de 30 até a década de 80. Já o pioneirismo americano e inglês de Morgan e Tylor desenvolvido respectivamente por Boas e Malinowski, através de seus “sucessores” tanto americanos (Benedict e Mead por exemplo) quanto ingleses – como exemplo: Radcliffe-Brown, – tiveram suas ideias já presentes e exportadas desde o início do século. Nesse momento, Lévi-Strauss irá tornar a Antropologia francesa um rede complexa de teorias ligadas à Sociologia francesa, conceitos culturais de Boas e ao marxismo históricos-dialético, uma das maiores contribuições antropológicas da atualidade. Posteriormente, Geertz irá desenvolver um lado muito mais específico da Antropologia ligadas às ideias da Sociologia Compreensiva de Weber e análise crítca das obras de Lévi-Strauss.  Claude Lévi-Strauss (1908 – 2009) foi um antropólogo, professor e filósofo francês que delineou as principais fontes teóricas...

A Sociedade NOK

Por volta de meados do século XX, o arqueólogo britânico Bernard Fagg (1915 – 1987) encontrou acidentalmente, durante uma mineração de estanho aluvial, nas proximidades da vila de Nok, no centro da Nigéria, esculturas artísticas de terracota representando animais e humanos pertencentes a uma cultura singular. A Cultura Nok, como ficou conhecida, teve seu mapa feito e ampliado após descobertas de outras localidades com o mesmo padrão de esculturas, se estendendo aproximadamente de norte a sul por cerca de 500 quilômetros do centro da Nigéria. Supõe-se que as terracottas de Nok representem as “esculturas figurativas mais antigas conhecidas até agora da África Subsaariana” (AMEJE; BREUNING; RUPP, 2005 p.283). Da mesma forma, podem oferecer a “primeira evidência de especialização artesanal" nas culturas da África ao sul do Saara (2005, p.284).  Escultura NOK Todavia vale destacar que não foi apenas materiais de terracota que foram encontrados. Fagg escavando em Taruga descobriu locais...

Boas e Malinowski: Difusionismo e Funcionalismo

No final do século XIX e no início do século XX, vimos uma ebulição de diferentes teorias antropológicas. Uns queriam, como Durkheim, sistematizar a etnologia que já vinha sendo feita nos últimos anos, e outros queriam consolidar a etnografia na base da Antropologia. A Etnografia seria nada mais do que o trabalho de campo, a imersão do pesquisador na sociedade estudada. Já a Etnologia seria a síntese do estudado através de conclusões tiradas por relatos de viajantes, missionários e exploradores. Mais tarde, Lévi-Strauss vai dizer que esta é a segunda etapa do trabalho antropológico, feita com base nos relatos do próprio antropólogo e não nos de outrem. Em meio a esse turbilhão de ideias, surge dois pensamentos opostos ao determinismo adotado inicialmente e as posteriores ideias evolucionistas, o difusionismo e o funcionalismo, representados, principalmente e respectivamente, por Boas e Malinowski.   Franz Uri Boas (1858 – 1942), antropólogo e geógrafo teuto-americano, chamado ...

A Arqueologia e os Museus no Brasil

A palavra Arqueologia tem sua origem etimológica no grego αρχαιολογία (“ arkhaiologia ”) , de “ archaios ” que significa “antigo” ou “coisas antigas”, e de “ logos ” que significa estudo ou discurso. Portanto, na sua origem, a arqueologia se firma como o “estudo das coisas antigas” (FUNARI, 2013: 23). Hoje em dia, ela pode ser definida como a “ciência que estuda os restos materiais deixados sobre o solo” buscando reconstituir e interpretar o passado humano (Dicionário de Arqueologia – Alfredo Mendonça de Souza, 1997). Entre os séculos XV e XVII foram formados muitas coleções de objetos raros ou curiosos que “receberam o nome de Gabinetes de Curiosidades ou Câmaras de Maravilhas, em alemão " Kunst und Wunderkammer ” (RAFFAINI,1993:159). Esses “gabinetes” eram mantidos por nobres, ricos burgueses, artistas, humanistas, e foram o prenúncio do que viriam a se tornar os museus um dia. Tinham o objetivo de englobar todo o universo conhecido com objetos e artefatos fantásticos e exótic...

A Mumificação no Egito Antigo segundo Heródoto

Múmia Egípcia em um tomógrafo na Itália [1] Heródoto, geógrafo e historiador grego, nascido no século V a.C. em Halicarnasso, descreveu e narrou em seu livro “Ἰστορἴαι” (Histórias) diversos fatos que têm como pano de fundo as Guerras Médicas travadas entre as poleis da Grécia e o Império Aquemênida. No seu segundo livro, denominado pelo nome Euterpe (uma das nove musas da mitologia grega), Heródoto nos conta um pouco sobre como era o processo de mumificação no Egito Antigo, consistindo na lavagem, limpeza, unção e bandagem do corpo. Havia pessoas encarregadas por lei para realizar embalsamamentos e que faziam disso profissão. Após a morte de um ente querido e/ou um cidadão conceituado, a família, tanto os homens como as mulheres andavam pelas ruas batendo em seus peitos lamentando a morte dele. Após isso, levavam o corpo para o embalsamamento. Assim, os professionais mostravam modelos de mortos em madeira, pintados ao natural para a família escolher. Acertado o preço, os parentes reti...

Maquiavel ou Calvino? Fortuna e Providência

Nicolau Maquiavel (1469 – 1527) e João Calvino (1509 – 1564) foram ambos personagens importantíssimos na história política e social do mundo. O primeiro mostrou a realidade política de seu tempo de forma espetacular, buscando preservá-la e fazê-la de modo que com que o soberano permanecesse no poder por mais tempo. O segundo, ao oposto do primeiro, buscava transformar a realidade a sua volta, mostrando os seus erros para que então os homens pudessem se arrepender. Maquiavel se tornou muito famoso por sua obra: O Príncipe , tido como “um modelo imoral de praticar o poder”, mas sendo “seguido à risca por quase a totalidade dos políticos que o criticam”. [1] Por outro lado, Calvino em seu livro As Institutas da Religião Cristã descreve sobre a salvação em Jesus e uma vida de piedade, portanto, entende que após a conversão do homem, este “já não só está aliviado e libertado da extrema ansiedade e do temor de que era antes oprimido, mas ainda de toda preocupação”. [2] Maquiavel desenvolve...