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Boas e Malinowski: Difusionismo e Funcionalismo

No final do século XIX e no início do século XX, vimos uma ebulição de diferentes teorias antropológicas. Uns queriam, como Durkheim, sistematizar a etnologia que já vinha sendo feita nos últimos anos, e outros queriam consolidar a etnografia na base da Antropologia. A Etnografia seria nada mais do que o trabalho de campo, a imersão do pesquisador na sociedade estudada. Já a Etnologia seria a síntese do estudado através de conclusões tiradas por relatos de viajantes, missionários e exploradores. Mais tarde, Lévi-Strauss vai dizer que esta é a segunda etapa do trabalho antropológico, feita com base nos relatos do próprio antropólogo e não nos de outrem. Em meio a esse turbilhão de ideias, surge dois pensamentos opostos ao determinismo adotado inicialmente e as posteriores ideias evolucionistas, o difusionismo e o funcionalismo, representados, principalmente e respectivamente, por Boas e Malinowski.  

Franz Uri Boas (1858 – 1942), antropólogo e geógrafo teuto-americano, chamado de "Pai da Antropologia Americana” e “Pai da Etnografia”, foi o primeiro a usar da interdisciplinaridade, não ficando limitado apenas ao método comparativo amplamente utilizado pelos evolucionistas. Para ele, o desenvolvimento histórico pode ter seguido uma grande variedade de caminhos. Ou seja, Boas não enxergava uma única cultura mundial dividida em vários estágios evolutivos como Morgan por exemplo (vide https://diariodeumfuturohistoriador.blogspot.com/2021/11/os-pais-da-antropologia.html), e sim que um mesmo fenômeno étnico poderia derivar de diversas fontes. Segundo o teórico, o método comparativo privilegiava a descoberta de ideias universais, e para ele isso era apenas o início do trabalho de um antropólogo. Boas propunha duas perguntas: Quais são as origens dessas ideias? E como elas se afirmaram em várias culturas? Para responder a essas questões o antropólogo deveria delimitar uma área pequena de estudo de campo e buscar reconstruir historicamente aquela cultura, estabelecendo recortes no tempo e no espaço.

Boas não criou nenhuma teoria, como Malinowski fez por exemplo, entretanto, adotou a teoria difusionista de sua época. Essa teoria pode ser dividida em três escolas: a escola hiperdifusionista inglesa que atribuía um único local como origem da cultura e sua difusão pelo mundo (o Egito); a escola histórico-cultural alemão-austríaca, que tinha uma visão mais pluralista da origem da cultura, aceitando vários locais de evolução, fundando a antropologia geográfica, o método cultural histórico e a Teoria dos círculos culturais; e a escola histórico-cultural norte-americana que criou os termos “traço cultural”, “complexo cultural” e “subculturas”. Esta última que por hora estamos mais interessados, devido ao pioneirismo de Boas nela. Para ele, “leis gerais” regem o desenvolvimento da sociedade, já que que os mesmos fenômenos étnicos – como a ideia de uma vida futura, um xamanismo subjacente, invenções como fogo e o arco, – ocorriam entre diversos povos que não possuíam origem comum (BOAS, 2004: 26). Isso se explicaria pela independência estrutural mental do homem ou pelas relações históricas, que é o que Boas privilegia no decorrer de seus estudos.  

Bronisław Kasper Malinowski (1884 – 1942) foi um antropólogo polaco naturalizado inglês. É considerado um dos fundadores da antropologia social. Aprofundando o método etnográfico de Boas, usou-o de forma mais radical e com a fundamentação de uma permanência mais prolongada no campo de pesquisa. Para ele, o estudo dos povos não deveria ser para reconstruir a história como Boas afirmava, mas para estudá-los na sua essência, por suas lógicas e características particulares de suas culturas. Seu estudo era disposto em três partes: método de documentação concreta e estatística, o que ele chamava de “material morto”; o dicionário etnográfio, onde fatos imponderáveis da vida real seriam analisados; e o corpus inscriptionum, onde ele capitalizaria a mentalidade da cultura estudada. Assim como Boas fez uma divisão geográfica para estudar os esquimós, Malinowski recortou na Papua-Nova Guiné, o “reino” de Kula para estudar. Para ele, a ciência do homem, em sua versão mais refinada e profunda deve levar-nos a um conhecimento baseado na compreensão dos pontos de vistas de outros homens. Ele então revoluciona epistemologicamente a Antropologia ao fundar a ideia de Alteridade, olhando o outro a partir de sua própria visão, utilizando-se da observação participante, o autor quis mostrar que “a partir de um único costume, ou mesmo de um único objeto muito simples, aparece o perfil do conjunto de uma sociedade” (LAPLATINE, 2007: 61).

Ao contrário de Franz Boas, que “procurava estabelecer repertórios exaustivos” e seus seguidores procuravam “definir correlações entre o maior número possível de variáveis de uma cultura”, Bronisław Malinowski era contra o difusionismo e entendia cada cultura como possuindo a função de satisfazer à sua maneira as necessidades fundamentais dos indivíduos, elaborando instituições, fornecendo respostas coletivas organizadas às suas necessidades. À essa sua teoria, ele chamou de funcionalismo. Enquanto Boas entendia a transmissão cultural se efetuando através de “empréstimos”, Malinowski acreditava que a sociedade deveria ser estudada em sua totalidade, “observando-a no presente através da interação dos aspectos que a constituem” (Ibid., 2007).

Ambos os teóricos foram importantíssimos para a consolidação da Antropologia e a definição de termos científicos para a maioria dos antropólogos que viriam. Embora haja muitas controvérsias nas suas teorias atualmente, pois enquanto Boas não parece definir de fato até onde seu método histórico estudaria, Malinowski já o definira por demais, - pois pensar na cultura como possuindo apenas a função de satisfação de necessidades sociais, seria reduzi-la em muito ao que lhe é própria, - ainda sim, são cruciais para o entendimento da Antropologia enquanto ciência moderna.


Referências

BOAS, Franz. Antropologia Cultural. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2004

BOAS, Franz. Cuestiones Fundamentales de Antropologia Cultural. Buenos Aires: Ediciones Solar, 1964

LAPLATINE, F. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2007

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