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Maquiavel ou Calvino? Fortuna e Providência

Nicolau Maquiavel (1469 – 1527) e João Calvino (1509 – 1564) foram ambos personagens importantíssimos na história política e social do mundo. O primeiro mostrou a realidade política de seu tempo de forma espetacular, buscando preservá-la e fazê-la de modo que com que o soberano permanecesse no poder por mais tempo. O segundo, ao oposto do primeiro, buscava transformar a realidade a sua volta, mostrando os seus erros para que então os homens pudessem se arrepender. Maquiavel se tornou muito famoso por sua obra: O Príncipe, tido como “um modelo imoral de praticar o poder”, mas sendo “seguido à risca por quase a totalidade dos políticos que o criticam”.[1] Por outro lado, Calvino em seu livro As Institutas da Religião Cristã descreve sobre a salvação em Jesus e uma vida de piedade, portanto, entende que após a conversão do homem, este “já não só está aliviado e libertado da extrema ansiedade e do temor de que era antes oprimido, mas ainda de toda preocupação”.[2]

Maquiavel desenvolve em seu livro dois conceitos importantíssimos: Fortuna e Virtú. Fortuna seria “uma espécie de poder do acaso que age visivelmente por meio das vicissitudes às quais todos estão sujeitos,” seria o que entendemos por “sorte” ou “destino”, nomes, na verdade, de divindades pagãs. A Virtú seria a “capacidade de liderança e de grandes feitos.” A “conquista de parte do território governado pela fortuna”, o nosso “livre arbítrio” usado para conquistar parte da sorte, poderíamos entender por “virtude”, entretanto, não é a virtude cristã de fazer as coisas com excelência para a glória de Deus, mas uma “decisão prática de agir para não entregar seu futuro simplesmente à sorte.”[3]     

Maquiavel, Galleria degli Uffizi, Florença - Itália.

Maquiavel possui uma “visão cíclica da história, o que “gera um fatalismo cíclico”[4]. “Deste modo, a sociedade é composta por indivíduos que ocupam um lugar predeterminado, o qual não lhes compete modificar, apenas conservar.”[5]  Destarte, “o homem é apenas um espectador do universo que pode até prever os eventos, todavia, não mudá-los”.[6] Para isso, o homem deve saber lidar virtuosamente a fim de se adequar às adversidades de seu tempo e poder vencê-las. Assim, se o fim de uma ação é tida como “correta”, (algo muito subjuntivo, pois quem decidiria isso seria a própria pessoa), logo, os meios para atingí-la são tidos como lícitos.   

Calvino, Muro dos Reformadores, Genebra - Suíça

Entretanto, com Calvino a interpretação da história é muito diferente. Ele a entende como sendo governada por Deus na sua infinita e multiforme sabedoria e Providência. Essa “direção de Deus sobre todas as coisas, ao contrário do que poderia parecer,” não leva a “um tipo de perspectiva fatalista”. Pelo contrário, “sua compreensão de providência de Deus inspira-o ao trabalho, consciente de que somos instrumentos de Deus para a execução do seu sábio e eterno propósito”.[7] “Ou seja: somos meios ordinários por meio dos quais Deus dirige a História.”[8]



[1] MAQUIAVEL, O Príncipe. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1998. Contracapa.

[2] CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Campinas, SP/São Paulo: Luz para o Caminho/Cultura Cristã, 1985, I.17.11

[3] COSTA, Hermisten Maia Pereira da. A Fortuna e a Providência: Maquiavel e Calvino, dois Olhares sobre a História e a Vida. FIDES REFORMATA XIX, nº 2, 2014, p. 55-75.

[4]  Ibid.,p. 63-64.

[5] Ibid.,p. 62-53.

[6] PIPER, Otto A. A interpretação cristã da história. Coleção da Revista de História. São Paulo, 1956, p. 15.

[7] COSTA, Hermisten Maia Pereira da. A Fortuna e a Providência: Maquiavel e Calvino, dois Olhares sobre a História e a Vida. FIDES REFORMATA XIX, nº 2, 2014, p. 74.

[8] Ibid.,p. 74.

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