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Boas e Malinowski: Difusionismo e Funcionalismo

No final do século XIX e no início do século XX, vimos uma ebulição de diferentes teorias antropológicas. Uns queriam, como Durkheim, sistematizar a etnologia que já vinha sendo feita nos últimos anos, e outros queriam consolidar a etnografia na base da Antropologia. A Etnografia seria nada mais do que o trabalho de campo, a imersão do pesquisador na sociedade estudada. Já a Etnologia seria a síntese do estudado através de conclusões tiradas por relatos de viajantes, missionários e exploradores. Mais tarde, Lévi-Strauss vai dizer que esta é a segunda etapa do trabalho antropológico, feita com base nos relatos do próprio antropólogo e não nos de outrem. Em meio a esse turbilhão de ideias, surge dois pensamentos opostos ao determinismo adotado inicialmente e as posteriores ideias evolucionistas, o difusionismo e o funcionalismo, representados, principalmente e respectivamente, por Boas e Malinowski.   Franz Uri Boas (1858 – 1942), antropólogo e geógrafo teuto-americano, chamado ...

A Arqueologia e os Museus no Brasil

A palavra Arqueologia tem sua origem etimológica no grego αρχαιολογία (“ arkhaiologia ”) , de “ archaios ” que significa “antigo” ou “coisas antigas”, e de “ logos ” que significa estudo ou discurso. Portanto, na sua origem, a arqueologia se firma como o “estudo das coisas antigas” (FUNARI, 2013: 23). Hoje em dia, ela pode ser definida como a “ciência que estuda os restos materiais deixados sobre o solo” buscando reconstituir e interpretar o passado humano (Dicionário de Arqueologia – Alfredo Mendonça de Souza, 1997). Entre os séculos XV e XVII foram formados muitas coleções de objetos raros ou curiosos que “receberam o nome de Gabinetes de Curiosidades ou Câmaras de Maravilhas, em alemão " Kunst und Wunderkammer ” (RAFFAINI,1993:159). Esses “gabinetes” eram mantidos por nobres, ricos burgueses, artistas, humanistas, e foram o prenúncio do que viriam a se tornar os museus um dia. Tinham o objetivo de englobar todo o universo conhecido com objetos e artefatos fantásticos e exótic...

A Mumificação no Egito Antigo segundo Heródoto

Múmia Egípcia em um tomógrafo na Itália [1] Heródoto, geógrafo e historiador grego, nascido no século V a.C. em Halicarnasso, descreveu e narrou em seu livro “Ἰστορἴαι” (Histórias) diversos fatos que têm como pano de fundo as Guerras Médicas travadas entre as poleis da Grécia e o Império Aquemênida. No seu segundo livro, denominado pelo nome Euterpe (uma das nove musas da mitologia grega), Heródoto nos conta um pouco sobre como era o processo de mumificação no Egito Antigo, consistindo na lavagem, limpeza, unção e bandagem do corpo. Havia pessoas encarregadas por lei para realizar embalsamamentos e que faziam disso profissão. Após a morte de um ente querido e/ou um cidadão conceituado, a família, tanto os homens como as mulheres andavam pelas ruas batendo em seus peitos lamentando a morte dele. Após isso, levavam o corpo para o embalsamamento. Assim, os professionais mostravam modelos de mortos em madeira, pintados ao natural para a família escolher. Acertado o preço, os parentes reti...

Maquiavel ou Calvino? Fortuna e Providência

Nicolau Maquiavel (1469 – 1527) e João Calvino (1509 – 1564) foram ambos personagens importantíssimos na história política e social do mundo. O primeiro mostrou a realidade política de seu tempo de forma espetacular, buscando preservá-la e fazê-la de modo que com que o soberano permanecesse no poder por mais tempo. O segundo, ao oposto do primeiro, buscava transformar a realidade a sua volta, mostrando os seus erros para que então os homens pudessem se arrepender. Maquiavel se tornou muito famoso por sua obra: O Príncipe , tido como “um modelo imoral de praticar o poder”, mas sendo “seguido à risca por quase a totalidade dos políticos que o criticam”. [1] Por outro lado, Calvino em seu livro As Institutas da Religião Cristã descreve sobre a salvação em Jesus e uma vida de piedade, portanto, entende que após a conversão do homem, este “já não só está aliviado e libertado da extrema ansiedade e do temor de que era antes oprimido, mas ainda de toda preocupação”. [2] Maquiavel desenvolve...

Os “Pais da Antropologia”

Morgan, Tylor e Frazer (da esquerda para a direita) D urante os séculos XVI e XVII foram formados muitos “gabinetes de curiosidades” apresentando diversos objetos exóticos das explorações feitas nas Américas. Nesse tempo, diversos viajantes, religiosos e aventureiros esboçaram o que iríamos chamar postumamente de um estudo “ pré-antropológico ”. Já no decorrer do século XVIII, tivemos a gradual transformação desses “gabinetes” em museus. Houve um começo de um “ projeto antropológico ” associando o homem não mais como apenas o sujeito do conhecimento, mas o seu próprio objeto, principalmente após as “descobertas” coloniais na Oceania. No século XIX, com a ascensão de teorias positivistas, evolucionistas e o imperialismo na África, o panorama da Antropologia começou a ganhar contornos definidos. Estudiosos como Morgan, Tylor e Frazer foram importantíssimos para que esse projeto ainda pioneiro se tornasse a ciência que hoje nós conhecemos.         ...

Sociedades e Desenvolvimento Tecnocientífico: Tipologias

Quadro divisório das teorias do desenvolvimento da sociedade em relação às técnicas utilizadas no decorrer do tempo:   1ª Fase 2ª Fase 3ª Fase JOSÉ ORTEGA Y GASSET TÉCNICA DO ACASO - Sociedades dita “primitivas”. - Todos os atos técnicos são realizados por todos os seus membros, sem especialização. ARTESANATO - Sociedade Grega, república-romana e medieval. - Aumento do repertório de atos técnicos e aparecimento do artesão como um técnico. SOCIEDADE ATUAL - Período que se desenvolve através do domínio das máquinas, oriundas da Revolução Industrial. - Configuração da classe engenheril na qual aplica o conhecimento científico através da técnica. LEWIS MUMFORD SOCIEDADE EOTÉCNICA - Sociedade do ano 1000 a 1750, caracterizada pelo uso da fonte gratuita de água e vento em contraposição com a fase seguinte. - Uso universal da madeira e também do ...

O primeiro antropólogo do Brasil e o determinismo

Raimundo Nina Rodrigues nasceu no dia 4 de dezembro de 1862, em Vargem Grande, no Maranhão, e morreu no dia 17 de julho de 1906, em Paris, na França. Foi um médico legista, professor, psiquiatra, escritor e o primeiro antropólogo brasileiro. De acordo com Thomas Skidmore no seu livro Black into white , Rodrigues foi o mais “prestigiado doutrinador racista brasileiro de sua época”  (2012, p.103).   Era um estudioso (e entusiasta) da desigualdade racial. Tentava convencer as pessoas de sua época sobre a inferioridade dos não-arianos no Brasil, atuando ativamente na abolição da escravidão, colocando o negro como um “objeto da ciência”. O antropólogo acreditava que a mestiçagem poderia levar à degradação física, moral e psíquica da população. Mas com base em que, ele afirmava isso? Rodrigues foi um dos expoentes das teorias deterministas no Brasil. É sobre isso que abordarei a seguir .      De acordo com Roque Laraia, em seu livro Cultura: um conceito antropológico ...

O que é Cultura? Uma explicação simples para algo complexo

C ultura pode ser compreendida como tudo aquilo que é produzido pelo homem, seja de forma material ou imaterial. É uma expressão humana particular que distingue um grupo social. Ela é um produto das sociedades humanas, logo não há cultura quando se trata de animais, bactérias, fungos, plantas, nada disso possui cultura. Padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes, tradições, língua, arte, tudo isso faz parte de uma cultura. Quando nascemos, tudo o que está a nossa volta possui uma cultura, nascemos em uma, podemos crescer em outra e ainda morrer em uma outra, mas nós possuímos e carregamos  c onosco  uma herança cultural proveniente   geralmente de onde nascemos ou de onde passamos a maior parte da vida. Quando entramos em contato com uma cultura diferente ocorre o que chamamos de Estranhamento, sendo que seu resultado pode dar início a uma autorreflexão e uma interação com o novo e diferente o, pode vir acompanhada de uma visão etnocêntrica, que gerará uma...