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O Império Bizantino

O Império Bizantino foi um dos maiores impérios dos tempos medievais. Seu início remonta aos anos entre 324 e 330 d.C, quando o imperador romano Constantino transferiu a capital de Roma para Bizâncio, pois esta era situada situada entre as rotas comerciais que passavam pelos mares Negro e Mediterrâneo, ligando o Oriente e o Ocidente. Em 395 d.C., após a morte do imperador Teodósio, o Império romano foi formalmente dividido em dois, na qual a parte oeste coube a Arcádio Augusto do Ocidente e a parte leste a Honório Augusto do Oriente. 

Mosaico de Justiniano e seu séquito

Após a queda da parte ocidental do império romano em 476, a parte oriental do império, agora o único império romano existente, encontrou seu auge no governo de Justiniano em 527 quando ascendeu ao trono. Este governante fez inúmeras obras públicas, guerras, expandindo o território bizantino e compôs um dos mais importantes códigos civis da história, o Corpus Juris Civilis, no qual compilou as leis já existentes e criou novas.

Um dos motivos que levaram a tão rico florescimento desse império foi o comércio. O Estado rigorosamente controlou o comércio interno e externo e reteve o monopólio de cunhagem de moedas, mantendo o sistema monetário durável e flexível adaptado às necessidades vigentes. Exerceu controle formal sobre taxas de juros e definiu parâmetros à atividade das guildas e corporações em que tinha interesse especial. O comércio bizantino era essencialmente um comércio de luxo, baseado no transporte de especiarias como pimenta-do-reino, cravo, canela, de seda e de outros produtos que provinham da Ásia e eram vendidos para o Ocidente. Todavia também possuíam uma forte economia rural, com destaque para a produção de cereais, vinhas e oliveiras.

Igreja de Santa Sofia (Hagia Sophia)

A relação do império com os árabes é bem interessante de ser analisada: embora tenha recebido muita influência desses povos, o que podemos observar na arte e na cultura, houve muitas guerras travadas entre os muçulmanos e os bizantinos entre os séculos VII e XII durante o expansionismo árabe dos califados Ortodoxo e Omíada. A primeira batalha formal em campo aberto entre o Império Bizantino e o Califado Ortodoxo foi a A Batalha de Ajenadaim no vale de Elá, a sul da cidade atual de Bete-Semes, Israel, em 634, cuja vitória pertenceu aos árabes, iniciando uma série de conflitos que durariam mais de cinco séculos, nos quais a própria capital bizantina (Constantinopla) seria cercada duas vezes em 674 e 717. Renato Viana Boy citado por Caroline Coelho Fernandes (2018: 86) […] acredita que a prática religiosa mulçumana contrária ao uso de representações iconográficas, assim como a judaica, pode ter levado os imperadores bizantinos a interpretar a ameaça árabe a seus territórios como um prelúdio de uma punição divina, devido à idolatria de sua população, fazendo com que proibissem as imagens [1].

Logo, o movimento iconoclasta que surgiu durante o governo de Leão III (717-741), o Isauro, provavelmente foi influenciado por questões de crenças judaicas e islâmicas, assim como a perda de alguns territórios da Judeia, Síria e do Egito promoveram uma integralização do território bizantino em torno de Constantinopla e da língua grega. Porém, o cenário iria mudar radicalmente com o início do movimento cruzadista no século XI. 

Mosaico do séc. XII. Imperador João II Comneno à esquerda (doando dinheiro para a Hagia Sophia) e sua esposa Irene da Hungria à direita

Até a Terceira Cruzada houve certo apoio entre os cruzados e os bizantinos, florescendo culturalmente nas áreas da literatura, filosofia, das artes e do comércio com a ampliação do contato entre latinos, italianos, gregos, e bizantinos. Entretanto, isso terminou com a morte do imperador Manuel I em 1180, dando origem à Quarta Cruzada, na qual os exércitos cercaram Constantinopla e a invadiram em 1204, coroando Aleixo IV Ângelo como imperador bizantino. Entretanto, este acabou sendo morto por Aleixo Ducas, o qual tomou o poder mas também acabou caindo nas mãos dos cruzados que retornam à cidade no mesmo ano e submeteram-na a três dias de massacres e pilhagens. Mesmo após a reconquista da cidade em 1261, O Império Bizantino nunca mais seria o mesmo. Enfrentando guerras civis e batalhas afora, Constantinopla, apesar de ainda ter-se mantido firme durante alguns anos, cairia definitivamente nas mãos dos turcos-otomanos em 1453, levando a uma migração de diversos intelectuais bizantinos para a Itália, culminando no que chamaríamos mais tarde de Renascimento. O que também levou a procura de novas rotas comerciais fora do Mediterrâneo Oriental, dando origem às Grandes Navegações e à descoberta do Novo Mundo.

O sultão Maomé II, o Conquistador, utilizou-se de enormes canhões na vitória sobre Constantinopla

Notas

[1] FERNANDES Caroline Coelho. O iconoclasmo bizantino: modos de integração e desintegração no mediterrâneo. Mare Nostrum, v. 9, n. 1. 2018, p. 73-94.

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